quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quando o programa de au pair acabou


Eu raramente abro muita coisa da minha vida pessoal pra vocês, porque não costumo gostar dos blogs de au pair que o fazem. Nada contra, acho ótimo, mas se colocar muita particularidade perde o foco de conceder DICAS. Acontece que como este post explica o fim do meu intercâmbio, vou abir um pouco mais. Não acostumem, seus fofoqueiros.
Terminei o programa perfeitamente. Tudo lindo. Muitas vezes me flagrei questionando se ter fechado o match com uma família de algum local mais badalado não teria sido mais vantagem do que vir pro interior dos Estados Unidos. Mas no fundo sei que não As coisas acontecem da forma que devem ser. Foi aqui, convivendo com uma família convencional, careta, que aprendi o que precisava.
Meus pais se separaram quando eu tinha 16 anos. Acho ate que eles aguentaram bastante, porque pouco lembro de vê-los felizes juntos. Por mais que tenham sido maravilhosos comigo, tentado me amar de todas as maneiras e provar que nada do que acontecia entre o casal afetava o amor que sentiam por mim, eu senti. Senti calada, porque desde muito pequena não sou de fazer alarde pra aborrecer a vida das pessoas. Minha filosofia é: SEJA FELIZ, DESDE QUE A SUA FELICIDADE NÃO FODA A MINHA, DA MESMA FORMA QUE EU VOU TENTAR SER FELIZ SEM QUE PARA ISSO PRECISE FODER A SUA FELICIDADE. Resumindo, se os caras quiseram se separar porque o casamento tava insuportável, quem seria eu, no auge dos meus 16 anos, a ficar fazendo draminha porque papai e mamãe não estão mais juntos. Eu hein. Acontece que aos 16 anos a figura paterna dentro de casa é importante pra uma menina. Virei adulta sentindo que precisava conviver de perto com um casal feliz. Precisava testemunhar um bom casamento, porque queria acreditar que essa instituição da sociedade ainda valia a pena.
 Veio o programa de au pair. Fiz o match. Cai na casa de um casal de classe media alta, por volta dos 40 anos, que trabalham com informática. Duas crianças mimadas - um menino e uma menina. Moradores de uma casa enorme, com um quintal enorme, 2 cachorros na época, depois 1 morreu, 3 carrões na garagem. Hábitos relativamente simples pro dinheiro que eu sei que ganham. Jantavam em casa quase todos os dias, pouco saiam a noite, faziam boas viagens, mas eu percebia que não eram de esbanjar. Muitas vezes compravam roupas em liquidação, pesquisavam preços. Se esforçavam para serem bons pais. Não eram frescos. Como aqui no Missouri não tem praia, se empenhavam em levar as crianças a piscina do clube todos os dias do verão e ir ao parque de diversões todo final de semana. E a Disney todo ano. A casa era espaçosa, mas não investiam grandes merdas na decoração Se limitaram a comprar algumas pecas caras, de gosto duvidoso, pelo menos na minha opinião. Tentavam preservar, mas não havia fixação naquilo. Essa gente me ensinou que a vida é simples. Trabalhar duro, tentar educar bem os filhos, tentar manter um bom casamento, assistir o culto na Igreja crista todo final de semana. Aprendi com eles que a vida não precisa ser perfeita, que eles não são perfeitos, que eu não sou perfeita, mas que se você tentar dar o seu melhor, a vida pode sim ser muito feliz.
Cumpri os 02 anos de intercâmbio nessa mesma host family. Quis estender o programa sem mudar de família no segundo ano. Minha melhor amiga entrou em rematch no início desse meu segundo ano, se mudou pra New Jersey. Uma outra amigona voltou pra São Paulo e me senti sozinha. Resolvi me abrir mais pras au pairs europeias, fiz noitadas pica das galáxias com elas, explorei mais a cidade, ate que percebi que precisava de um namorado. Eu sai do Brasil namorando um cara gente finíssima, que me ajudou na cura do maior pé na bunda da história mundial de todas as histórias do pé na bunda de todos os tempos que um filho do capeta tinha me dado. Apesar de toda a ajuda, eu gostava demais dele, mas não o amava.
Não amava o suficiente pra ficar no Brasil por ele e desistir do intercâmbio, não amava o suficiente pra manter um namoro via skype por 2 anos. O namoro acabou no 2o ano de au pair e depois disso eu me sentia ainda mais sozinha. 
Cheguei num nível em que precisava de um professor de inglês e de alguém que me levasse pra jantar fora e fizesse um carinho de vez em quando. Decidi ser feliz. Não demorou e comecei a namorar alguem que morava perto. Cinco horas de conversa no 1o encontro, juras de amor na segunda semana juntos. Anel no dedo aos 3 meses juntos, casamento depois de 5 meses. E eu, que era convencida de que é normal enxergar o mundo na limitação das cores neutras, comecei a ver tudo nas cores de Monet, da fase alegre do Picasso, da arte pop de Andy Warhol.
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa
Cabe o meu amor
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois

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